Plásticos em Revista: Entrevista sobre o fim das APARAS

O termo indústria 4.0 está relacionado a quarta revolução industrial e tem por base um projeto de estratégias do governo alemão voltada para tecnologias. Isso se originou no ano de 2011.

Dentro do que foi protagonizado pelo governo alemão,  o termo foi originalmente utilizado na feira de Hanover naquele ano e o grupo responsável pelo projeto o detalhou em meados de outubro de 2012, apresentando um pacote de sugestões ao governo alemão em 2012 nas pessoas dos senhores Sigfried Dais (Bosch) e Kagermann(Acatech).

Foi em abril de 2013 que publicaram um trabalho final sobre o desenvolvimento da indústria 4.0, ou, era da manufatura avançada, como a ela se referem os americanos e os chineses.

Já há exemplos práticos em aplicação no mercado europeu e americano.

-A primeira revolução industrial foi em 1780 que criamos as máquinas a vapor e o tear mecânico.
-Em  1870 utilizamos aço, energia elétrica, motores a combustão e veio a segunda revolução industrial.
-Em 1970 entra em cena a robótica , eletrônica e sistemas computadorizados e temos a terceira revolução industrial.
-Desde 2013 está em andamento  a implantação dos métodos cybers-físicos, internet das coisas e processos descentralizados de tomadas de decisões.

Como nota o avanço da Indústria 4.0 nos equipamentos da nova geração para unidades de reciclagem de plástico?
Os equipamentos podem ser melhor aproveitados, explico fazendo um paralelo entre o usuário e a capacidade de um celular de ponta. Usamos se muito 10% da capacidade do processador dele, agora, o transponha para um equipamento industrial, pronto, temos hoje equipamentos com muito mais capacidade do que o que está sendo efetivamente usado.

No Brasil ainda não temos no setor de reciclagem de plásticos nada que se assemelhe ao apresentado nas feiras europeias, salvo os sistemas de triagem eletrônicos, onde já temos algumas plantas em operação no país, mas, nada ainda interligado em células de produção como o mostrado em Hanover e na FERIA K 2016.

Quais os sinais que percebe desse conceito de manufatura avançada ( incremento da automação e Tecnologia de Informação/TI no processo de reciclagem), além dos sensores eletrônicos de triagem de sucata plástica?

Não se percebe na reciclagem sinais desse conceito de manufatura avançada por aqui.

Existe sim um incremento da automação, com algumas tentativas de alimentação de softwares via módulos de TI, porém, esbarram na falta de interligação modular já citado anteriormente e também na qualificação da mão de obra que lida ou vai lidar com esse tipo de equipamento e tecnologia de TI.
Um comparativo que costumo fazer é o seguinte: …”temos hoje uma boa equipe de pilotos de 4X4 Off Road, mas, estão introduzindo carros monopostos tipo formula 1 cujas técnicas de pilotagem são muito diferentes, e para isso temos de treinar toda a equipe que do time participa, as velocidades, exigências e reações são muito diferentes”…

Com a ascensão da Indústria 4.0 na tecnologia de reciclagem de plástico, quais são, hoje em dia, as etapas do processo nas quais a operação manual corre mais risco de ser cortada pela nova onda de automação e TI?

A Indústria 4.0 almeja a produtividade ideal, o que também significa zero refugo gerado em linha. Isso significa que um valorizado mercado para recicladores, a disponibilidade comercial de aparas de primeira moagem, está com os dias contados?

Não necessariamente, porque, existem processos que não permitem o reaproveitamento de suas aparas, como o alimentício e farmacêutico entre outros.

Teremos uma redução sensível parra esse tipo de material?

A resposta é um sim!

Saliento que esse movimento já vem tomando forma com os elevados preços das resinas virgens, versus a remuneração achatada dos preços de venda em um mercado recessivo como está o brasileiro nos últimos dois anos e sem uma perspectiva clara e confiável de retomada do crescimento econômico, logo a frente.

Dizer que ele está com os dias contados com todas as dificuldades que temos de infra estrutura no Brasil para podermos usar a internet das coisas (internet of things – IOT), vamos falar em anos que é mais real.
Afinal, todas as máquinas para transformação de plástico ligadas à Indústria 4.0 acenam com máximo aproveitamento de resina virgem e conseqüente economia no processo.

Falar em máximo  aproveitamento é uma coisa, garantir refugo zero é outra bem diferente e nas entrelinhas temos muitas observações a serem notadas com atenção, pois do contrário, não poderemos utilizar o potencial total que o sistema 4.0 preconiza e oferece.

Essas necessidades passam pelo grafado logo abaixo:

Internet das coisas.
Big Data Analytics (utilização dos seis C’s).
Segurança de rede
Ambiente macroeconômico
Qualidade da educação, pensando em manufatura avançada.
Formação e treinamento dos trabalhadores.

Pelo que se vê, pelo menos no Brasil, vamos levar um bom tempo antes de ver as aparas de primeira moagem desaparecerem…

Pelo andar da carruagem, as aparas de primeira moagem caminham então para virar sinônimo de produção industrial obsoleta, por ainda gerar resíduo na linha de transformação?

Com certeza isso vai ocorrer, pois, lembre-se de que a demanda por engenheiros e técnicos especializados será imensa e estes terão de olhar a produção de forma diferente da de hoje, ou seja, passa a ter importância vital, que tenham uma visão do todo, saibam interagir com outros profissionais de outras especialidades e juntos colocar em prática e na prática todo o rastreamento virtual do processo desenhado pelos engenheiros do setor de TI, alertando e sugerindo modificações necessárias e plausíveis nos mesmos projetos e isso com implicações em todo o sistema Cyber-Físico, sistemas de software, cloud, sensoreamento para alimentação do Big Data Analytic e todas as opções envolvidas nos processos de tomadas de decisões.

Imagine todo esse sistema interagindo desde o cliente usuário do material reciclado, passando pela recicladora, seus processos de fabricação, e chegando no setor de logística de recebimento da sucata e este indo até as cooperativas e empresas de comércio de sucatas.

Todos querem ter zero de estoque e trabalhar Just in time e fica no ar a pergunta… em que parte desta cadeia imensa repousará o “colchão” regulador do estoque de materiais pós consumo para ser iniciado o processo 4.0?

Eu particularmente, não tenho essa resposta.

A Indústria 4.0 é caminho sem volta, mas ainda transcorre em estágio embrionário no I Mundo e, pela lógica, demorará bom tempo para desembarcar em mercados emergentes como o Brasil. Para colocar as barbas de molho, quais as suas sugestões sobre como os nossos recicladores de plástico deveriam começar a se preparar para assimilar as inevitáveis mudanças em seu negócio e produção introduzidas pela Indústria 4.0?

Primeiro ler artigos e entrevistas nas publicações especializadas.

Procurar entender o que mais podem obter dos seus atuais equipamentos.

Olhar o seu negócio e fazer uma crítica sobre procedimentos, eficiência, custos versus benefícios.

Olhar para a sua mão de obra, pois, essa indústria, vai eliminar o mito de que mão de obra  menos qualificada é menor custo para a empresa.

Começar a detectar dentro do seu próprio quadro de pessoal,  aqueles profissionais que são especializados, mas, além disso interagem bem em grupo e tem atitudes pró ativas e buscam sempre evoluir e aprender mais agregando valor ao seu trabalho e a empresa.

Lançar um olhar crítico sobre sua própria estrutura de comunicação e interface de internet, telefonia e compilação de dados.

Desenhar dentro da sua estrutura qual o perfil de colaboradores que necessita dentro dessa nova indústria que se aproxima.

No geral, nossos recicladores relutam em investir na reciclagem de conhecimentos.Mas, com a Indústria 4.0 pintando no horizonte, quais ações concretas sugere que eles deveriam tomar, na prática, para obter os mínimos conhecimentos para entender o que está acontecendo?

Fazendo aqui um exercício de imaginação, vamos considerar por um instante de que a indústria 4.0 está implantada no Brasil e assim chegaram a uma redução drástica que beira o zero de refugo e com isso temos apenas a opção de utilização de sucata plástica de pós -consumo.

Conhecimento técnico é fundamental. Sem ele, nada poderemos fazer de diferente, pois, tivemos na edição de 2016 da FEIRA K , extrusoras de filme com cabeçotes giratórios com patente registrada para filmes de até 11 camadas envolvendo 8 materiais diferentes!!!

Como vou reciclar isso? Como esse material se comporta quando misturado com o monocamada? Há incompatibilidade entre os biopolímeros apresentados se misturados com os obtidos pelo processo que utiliza o catalisador metálico Ziegler?

Como posso usar o leque de aditivos e recuperadores de propriedades mecânicas com a adição de cargas minerais… como eles se agregam nas moléculas das cadeias poliméricas, é pelo átomo de Carbono? Será pelas pontes de Hidrogênio e de que forma?

Esse o tipo de conhecimento que teremos de ter como recicladores, para entender os processos que ocorrem dentro do canhão de suas extrusoras e que impactam a qualidade do produto obtido.
No plano geral, como avalia o grau de capacitação dos operadores do chão de fábrica das recicladoras brasileiras para trabalharem num processo regido pelo conceito da Indústria 4.0? Os nossos operadores de recicladoras, formados na prática ou nos atuais cursos técnico profissionalizantes, estão em condições de ter um rendimento satisfatório numa linha de produção 4.0?

Nesse momento temos profissionais que estão sendo formados para a indústria ainda dentro do modelo da terceira revolução industrial, o modelo 4.0 ainda é incipiente e demora a chegar até aqui, mas, teremos de rever a forma, o conteúdo e forma de ministrar a formação desses novos profissionais além da reciclagem dos já formados e em atuação no mercado.

O setor de reciclagem ainda é regido muito pelo empirismo e baseado em conceitos consagrados anteriormente e no de correr de décadas desde 1970, período no qual por exemplo, surgiu o primeiro curso técnico em plástico da América do sul, montado pelo SENAI, na Escola Técnica Frederico Jacob no Parque São Jorge.

Nosso pessoal de chão de fábrica  não está pronto para esse conceito de indústria 4.0, até mesmo por causa do conceito tão novo e criado para uma estrutura de produção tecnologicamente desenvolvida como a da Alemanha, Estados Unidos, China por exemplo.

Trata-se de tecnologia se alta complexidade para eles ou as máquinas 4.0 possuem elevada autossuficiência e interface mais simples, não exigindo maior especialização do chão de fábrica?

Creio que o perfil do profissional apto a transitar no mundo 4.0 depois  de totalmente implantado no Brasil, será alguém com no mínimo segundo grau técnico completo, fluente em inglês, com bom nível de relacionamento interpessoal, fluência na escrita e entendimento na língua portuguesa.

Arrisco até a dizer que um pronunciamento feito pelo diretor Regional do SENAI/SC feito em uma entrevista do CNI resume o que vai ocorrer por aqui.

Jefferson Gomes

Esse processo 4.0 vai nos obrigar a evoluir sempre de maneira continua e com uma intensa troca de informações bem direcionadas, pois, sempre haverá oscilações de mercado, competidores, concorrência com outros materiais, processos e tecnologias.

Sim, a indústria 4.0 é uma revolução ainda com desdobramentos que sequer imaginamos, mas, temos de dar a partida para não ficarmos ainda mais para trás na competência e concorrência dentro do mundo como palco de negócios.

O momento mais delicado será exatamente esse, o da transição, do modelo atual, para o modelo proposto onde haverá um deslocamento de uma grande massa de trabalhadores migrando de um setor para o outro e tendo de se atualizar de forma rápida .

Paulo Francisco da Silva
Diretor Comercial e Desenvolvimento
Neuplast Ind e Com Ltda.

publicada em janeiro/2017

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